h1

A Primavera em pleno outono

23 de Março de 2017

O sol brilhava estonteante, era manhã de primavera. Joana abriu a janela na esperança de que uma brisa amena ventilasse a sala e trouxesse algum frescor. Afastou as cortinas e olhou para o céu. Sentia-se cansada.

Na noite anterior saíra sozinha para um bar, onde bebeu e dançou até se cansar. Não soube como voltou para casa, mas imaginou que aquele homem desconhecido deitado em sua cama, enrolado nos lençóis, tivesse alguma coisa a ver com isso.

 Pela janela, enxergava o mundo. Carros passando lentamente, pessoas caminhando sem destino, árvores altas e frondosas, mas ainda muito distantes dela. Foi quando observou, vindo do norte, que algo leve e colorido se aproximava. Curiosa, acompanhou seu voo com os olhos, contagiando-se pela leveza e brevidade com que a borboleta, pequena e delicada, era capaz de flutuar. Com graça, posou em um vaso repleto de onze-horas, no canteiro da janela vizinha. Entre as flores cor-de-rosa, seu colorido se destacava, dando ainda mais vida à natureza. Joana olhou para seu próprio peitoril: poeira e manchas de chuva cobriam o mármore cor de chumbo.

Invejou a vizinha e desejou que também tivesse vida em sua janela. Ignorou o homem que ainda dormia no quarto, vestiu short jeans e camiseta preta, as primeiras peças de roupa que vira atiradas sobre a poltrona, calçou os chinelos e desceu pelo elevador de seu prédio. Caminhou até o mercadinho, foi à sessão de jardinagem. De um lado, materiais e acessórios para jardim; de outro, orquídeas, cravos, lírios da paz e samambaias. Escolheu um cacto, seco e bruto, que colocou solitário sobre o peitoril.

Alguns dias depois, ao acordar, outro homem dormia em sua cama. Com raiva de si e dele, o acordou às pressas, pedindo sem muita educação que fosse embora. Assim que ele atravessou a porta, Joana a trancou, e pelo guarda-chuva encostado na porta vizinha, em frente à sua, depreendeu que chovia. Correu para fechar a janela; por ela passava uma fina chuva fria, que umedecia levemente o chão da sala. Viu que de seu cacto brotava uma flor, e entendeu que assim como na natureza, havia beleza nela também.

Pegou o carro, voando até a floricultura. Entre rosas, violetas, rabos de gato e dentes-de-leão, escolheu azaleias, margaridas, gerânios e dálias.  Comprou um bebedouro para beija-flores. Voltou para casa, deixou que a chuva lavasse o mármore, mas pensou que depois teria que limpá-lo para tirar as manchas de poeira. Distribuiu os pequenos vasos harmoniosamente, enfeitou-os com pedrinhas coloridas que serviam também para aquários, deu-lhes energia e cor.  Sentiu-se viva.

Com os cotovelos apoiados sobre o peitoril, as mãos segurando o rosto, aspirou o doce aroma que das flores emanava. Pôs-se na expectativa de que borboletas e beija-flores logo viessem lhe fazer visita. E esperou, esperou, esperou; até cansar.

Sentou no sofá, na solidão da sala de estar. Pelo reflexo da televisão desligada, viu-se sem maquiagem. Achou-se bonita.  O relógio marcava quase sete horas da noite, o horário de verão fazia com que começasse agora a escurecer. Aninhou-se entre as almofadas, repousando o corpo. Pensou na alegria que era estar consigo mesma, até que adormeceu.

Na manhã seguinte, despertou com calma, espreguiçou os braços. Nem havia percebido que havia dormido repentinamente. Após um longo e profundo bocejo, ainda deitada, viu na janela um beija-flor sair correndo, abandonando o pequeno bebedouro pendurado no dia anterior por Joana. Levantou num pulo, nem calçou os chinelos; correu para a janela, queria ver o mundo.

Ao se aproximar, sentiu mil coisas lhe bagunçarem o estômago. Seriam borboletas dentro dela? Olhou atônita, infestada de uma alegria e de uma satisfação que jamais haviam se manifestado dentro de si. Sorriu, maravilhada: borboletas se confundiam com o colorido das flores, nos pequenos vasos enfeitando a moldura. Deles brotavam vida. Joana suspirou, sentindo-se plena e agradecida. Pensou que agora tinha que cuidar de seu pequeno jardim, adubar sua terra, semear e regar com amor o que dela germinasse. Joana florescia.

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: