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Um Eu

15 de Novembro de 2016

 

“Não sou nada”, ouviu distante, vindo de algum lugar dentro de si.

Deitada em sua cama, os pés cobertos por lençóis, a alma no além daquele quarto. Passara anos de sua insignificante vida dedicando-se aos estudos. Vestibular, graduação, mestrado e doutorado. E agora? Levantou a cabeça, virou o rosto em direção à estante: gramáticas, dicionários, livros de literatura e de mitologia. Havia lido todo Os Lusíadas; a Ilíada sabia de cor; respondia agilmente qualquer dúvida sobre sintaxe e escrevia artigos sobre escritores portugueses como ninguém. Citava Benjamin, Adorno e Nietzsche; relacionava mimesis, mathesis, semiosis como se fossem conceitos simples. Discorria em francês e alemão; falava espanhol e estava aprendendo grego. Muito sabia da teoria, pouco da prática. Lia Clarice Lispector, Fiama, Manoel de Barros. Não entendia nada, mas fingia. Ela era uma fraude.

“Dominava as regras do saber, mas suspeitava as do amar”, ouviu mais uma vez vir de dentro.  Era o que a alma dizia a todo e cada instante.

Quanto mais estudava sobre o mundo, mais sabia o quanto lhe faltava saber. Era capaz de entender de tudo, mas e de si, o que sabia? Que gostava de ouvir música e odiava o verão.  Que 2 + 2 são quatro, que a capital da Bolívia é Sucre e a de Buenos Aires é Argentina; que o ovo veio antes da galinha, e que tinha o costume de fugir de questionamentos existenciais. Também sabia que ego era o próprio Eu. E ela, quem era?

Levantou da cama, caminhou até o banheiro, pôs-se em frente ao espelho. O que via? Olheiras de noites mal dormidas, cabelos de um vermelho tingido e ressecado, os óculos lhe pesando o semblante. Será que era mesmo os óculos que lhe pesavam o semblante? Estava ficando velha. Ah, como o tempo passava ligeiro e despercebido… Como ela desejava, intimamente, que fosse capaz de viver um tempo homogêneo; um tempo sem relógio, sem pressa, com vida… Abaixou a cabeça, fechou os olhos com firmeza. Não queria mais se enxergar. Mas ainda era capaz de se ouvir:

“Vamos, não chores… A infância está perdida. A mocidade está perdida. Mas a vida não se perdeu.”

Olhou à sua volta: estava sozinha. No corredor de sua casa, diplomas e certificados ornavam mediocremente as frias paredes. O que um título de doutora dizia sobre ela? Que era inteligente e firme? Estudiosa e persistente? Não estavam lá à toa: sabia. Talvez ela não fosse uma farsa, talvez conhecesse algo sobre a vida… Mas não; a verdade era que de nada sabia. Faltava-lhe o mais importante: o conhecimento de si. Pensou que se mudasse sua perspectiva de mundo, se procurasse entender o que os poetas diziam mais do que se importava com títulos e honrarias, pudesse assim avançar na busca do conhecimento de seu Eu. Será que ainda havia tempo?

Foi até sua estante, com coragem e precisão. Pegou aleatoriamente um livro. Desta vez, resolveu perguntar ao invés de esperar que as respostas saíssem de dentro dela, e abriu em uma página qualquer:

— Quem sou eu?

“Sou um monte intransponível em meu próprio caminho. Mas às vezes, por uma palavra tua ou por uma palavra lida, de repente tudo se esclarece.”

Foi quando percebeu que de nada adiantava de tudo querer saber, pois o conhecimento pleno jamais é capaz de ser atingido. E dentro de si, diante de sua própria insignificância perante ao mundo, aprendeu que nunca seria nada enquanto seu obstáculo fosse ela mesma.

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